• Tarsila P Viggiani

De quem são as decisões do nascimento?

Quais informações você tem a respeito do parto? O que você deseja e o que você idealiza? Você tem as pessoas certas ao seu lado para esta jornada?

Lembro quando decidi que não seguiria o caminho tradicional do parto normal que encaminha para cesárea. Estava conversando com uma colega de trabalho (hoje amiga) sobre “o tal do parto humanizado” e eu achava lindo, mas que isso era coisa de Gisele Bündchen – super inacessível. Até que ela me falou sobre uma amiga que tinha feito o parto humanizado e me passou o nome de um lugar.


Entrei na internet e não sabia se aquele lugar era uma casa de parto, uma clínica ou um lugar para encontro. Vi que tinha uma roda de conversa e apareci lá em uma quarta-feira à noite. Lembro daquelas famílias lindas juntas: mãe, pai, avó e eu ali sozinha em busca do que eu faria dali pra frente. Eram depoimentos de duas mulheres que tinham tido parto domiciliar. Ambos os partos eram do segundo filho/a. E foi moderado por uma pessoa chamada Márcia.


Eu simplesmente me encantei. Me encantei por tudo: pelo parto, pela Márcia, pelo jeito que ela falava, por todos daquela sala sentados no chão em busca de informações e por tão simples que eram as coisas. Mas o que mais me impressionou foram os filhos mais velhos fazendo carinho em suas mães durante o trabalho de parto.


Cheguei em casa e falei para o meu marido: eu vou ter um parto normal humanizado no hospital, pois sei que já é muita informação para você, mas o segundo filho eu não quero nem saber, ele vai nascer em casa.

E assim foi a minha busca. Eu precisava agora, “apenas” procurar os profissionais certos. Eu ainda tinha muitas dúvidas na minha cabeça e agendei uma consulta com a Márcia. As secretárias da clínica não queriam agendar a consulta, pois ela não teria disponibilidade para me atender na data do parto. Eu expliquei que não havia problema, que eu só queria falar com ela. E mais uma vez a Márcia mostrou todo o conhecimento técnico e toda a humanidade que tinha de explicar a mesma coisa tantas vezes com a mesma devoção e paciência.


Porém, eu já tinha um obstetra que estava me acompanhando, que estava nos dois partos da minha prima e que esteve comigo na minha primeira gestação, quando tive um aborto espontâneo. Na consulta seguinte que fiz com ele, após começar a entrar no universo da humanização, o questionei sobre o parto humanizado. Nunca vou esquecer a resposta dele (em tom mais alto que o normal): “Não acredito que uma pessoa estudada como você tem esse tipo de pensamento”. Então ele começou a explicar que “nos partos dele” quem decidia era ele, de tudo o que poderia acontecer em um parto, que ele fazia um “picote” na vagina (mais tarde fui saber o que era episiotomia) pois se não fizesse isso o corte natural que o parto faz juntaria minha vagina com o meu ânus e me contou da condução dele em um parto normal com uma paciente dele que não queria intervenções.


Fui embora bem desolada, mas confiante de que o que ele me falou não era o caminho que eu queria seguir. A consulta seguinte cairia em um feriado, então nem marquei a próxima consulta, mas não tive coragem de falar que não voltaria.


Finalmente consegui uma agenda com a médica desta clínica e comecei a buscar toda a equipe. Lembro de constantemente questionar sobre o “picote”, pois meu maior medo era emendar a vagina e o ânus. Pacientemente minha nova obstetra me respondeu diversas vezes que aquilo seria muito difícil de acontecer. Então encontrei toda a equipe que faria parte do parto, busquei fisioterapia para o períneo e me preparei para tal – não com muito tempo, afinal eu já estava por volta da 32º./34º. Semana.

Até hoje não voltei para falar com o médico anterior, mas liguei e avisei a secretária que eu não voltaria.

O parto do Pedro foi uma das melhores experiências da minha vida – mas não vou me estender aqui, pois esse é um outro relato – baixa luz, sem intervenções, com uma laceração pequena na vagina que precisou de uns 4 pontos e algo que sim, dói, mas que eu indico para todo mundo.


O mais importante de tudo isso é que, mesmo sem conhecer o forte movimento ao parto humanizado, segui o que achei que era melhor para mim. Por muito tempo tive vergonha de ir “contra” aquele médico, não sabia o que falar para ele.


Hoje, para quem também pensa assim, lembre-se o parto é seu. Um médico assiste a (e alguns “fazem”) centenas, talvez milhares de parto ao longo de sua jornada, e você, quantos partos terá? Um ou dois. Talvez três ou quatro. Essa experiência é sua. Você irá lembrar dos pequenos detalhes por toda uma vida. Então pense só em você e no seu bebê e encontre uma equipe que esteja ao seu lado permitindo que o protagonismo seja seu.

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